subversão dos meios

“Logo eu que nunca fui muito afeito a normas, me apaixonei por uma” (Paulo Leminski, Agora é que são elas)

Amanhã no Híbrida vou falar sobre Subversão dos Meios. O tema da transgressão aparece num dos artigos que estou compilando para um livro que reúne textos inéditos (ou quase) dos últimos 10 anos. É uma passagem por 3 formas de entender a transgressão: na linguagem, no comportamento e na política. A seguir, alguns trechos que vão ser importantes como contexto para a apresentação de exemplos do audiovisual e da arte contemporânea que buscam os desvios das normas, as rupturas de expectativas, a fuga aos padrões.

# 1 os homens e seus desejos coletivos :: o homogêneo e o heterogêneo

“In its ordinary sense the word “crowd” means a gathering of individuals of whatever nationality, profession, or sex, and whatever be the chances that have brought them together. From the psychological point of view the expression “crowd” assumes a quite different signification. Under certain given circumstances, and only under those circumstances, an agglomeration of men presents new characteristics very different from those of the individuals compositing it. The sentiments and ideas of all the persons in the gathering take one and the same direction, and their conscious personality vanishes.

Gustave Le Bon, The Crowds; Study of the Popular Mind, loc 181

#2 subversão dos padrões cotidianos :: o dia em que Rousseau foi morar numa ilha

“A transgressão comportamental está na esfera das ações que — segundo o escritor francês Georges Bataille — não negam o tabu mas o transcendem e o completam (cf. Bataille, Georges. “Trangression”. In: Erotism. Death and Sensuality. San Francisco: City Lights Books, 1986. p. 63). O tabu, nesse contexto, é muitas vezes entendido como uma forma primitiva da lei. Conforme demonstrado por Freud em Totem e Tabu, este último põe em relevo “uma necessária função que a religião cumpre ao consolidar a construção propriamente humana, a cultura” (cf. Xavier de Menezes, José Euclimar. “Culpa: instrumento mnemônico”. In: Fábrica de Deuses. A Teoria Freudiana da Cultura. São Paulo: Unimarco, 2000). Nesse contexto, transgredir é desviar em direção ao que a cultura não aceita como norma, àquilo que os homens proibem justamente por sabê-lo demasiadamente humano.

# 3 subversão da linguagem :: os imãs que geravam imagens

A trangressão de linguagem acontece no domínio do que Chlovski chamou de estranhamento. Em A estratégia dos signos, Lucrécia D´Alessio Ferrara explica como a “teoria de Chklóvski que se apóia na ação de estranhar o objeto representado procura transpor o universo para uma esfera de novas percepções que se opõe ao pesa da rotina, do hábito, do já visto.” Nesse contexto, continua a autora, o “produto difuso, oblíquo, é um obstáculo à comunicação, é uma contracomunicação que se torna mais difícil e, por isso mesmo, mais fértil a percepção que o receptor passa a ter do universo”. Ao passo que a transgressão conforme definida pela psicanálise implica em um desvio semântico, o estranhamento é antes uma operação sintática. Por isso, afirma Ferrara, “antes de preocupar-se com o receptor, Chklóvski estará preocupando-se com a natureza do ato criativo como aquele modo de formar capaz de inibir a atrofia mental e impedir as percepções automáticas e automatizantes.” (cf. Ferrara, Lucrécia D´Alessio. A estratégia dos signos. São Paulo: Perspectiva, 1981. pp. 33-5)

# 4 subversão política :: a mulher que derramou lágrimas subterrâneas
Segundo José Paulo Paes, Henri David Thoureau cultivava uma “irônica descrença em relação às utopias tecnológicas”. O conceito de desobediência civil propõe práticas sistemáticas de desvio consciente das normas vigentes, o que o aproxima do tema discutido hoje. Seu pensamento não se restringiu aos livro, o que o levou à prisão por se negar a pagar seus impostos, alegando que o dinheiro estava sendo usado pelo governo dos Estados Unidos para financiar um regime escravagista e em guerra com o México com o qual ele não concordava. Esse episódio o leva à redação do famoso ensaio Desobediência Civil, em que afirma que leis injustas existem e pergunta: “devemos contentar-nos em obedecer-lhes ou empenhar-nos em corrigi-las; obecer-lhes até o momento em que tenhamos êxito ou transgredi-las desde logo? Em governos como o nosso, os homens, de modo geral, pensam que devem esperar até o instante em que tenham logrado persuadir a maioria a alterá-las. Pensam que, se lhes resistissem, o remédio seria pior que o mal. Mas é culpa do próprio governo o remédio ser pior que o mal. Ele o torna pior. Por que não se mostra mais apto no antecipar e aplicar reformas? Por que não trata com carinho sua judiciosa minoria? Por que não protesta e resiste antes de ser ferido? Por que não encoraja seus cidadãos a alertamente lhes apontarem as faltas e a procederem melhor do que eles lhe ordena? Por que sempre crucifica Cristo, excomunga Copérnico e Lutero e declara Washington e Franklin rebeldes?” Nesse caso, a trangressão acontece pelo desejo explícito de modificar as normas, diante de leis que regulamentam comportamentos conduzidos por políticos muitas vezes em desacordo com a consciência dos eleitores que os escolheram como representantes.

 

O palco como máquina de percepção

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O alemão Erwin Piscator foi um dos grandes inovadores da dramaturgia de vanguarda, usando luz e diferentes configurações espaçiais como estratégias de montagem e fragmentação narrativa.

Um dos temas do livro multifacetado de Chris Salter, Entlaged — Technology and The Transformation of Performance são os avanços nas tecnologias de construção de palco  que surgem no início do Século XX. Logo no início do texto ele descreve as dificuldades de implementação destas experiências, em função dos custos e da busca por levar os recursos técnicos existentes na época para além de suas possibilidades imediatas. Um exemplo: “Despite numerous attempts, it would be several years before Prampolini had the opportunity to realize his scenic ideas, which finally occured in 1918-1919 when Prampolini arranged for a demonstration of his theories at the Teatro Odesclachi in Rome /…/ Although this prototype project could not by no means be called a commercial succes (it ran for two days), it finally secured Prampolini’s international reputation, helping him become one of the main forces in the world of avant-garde European scenography at the time”. A despeito de contextos nem sempre favoráveis (como no caso do esvaziamento do construtivismo russo a partir do momento em que o experimentalismo passa a ser considerado incompatível com o projeto político socialista), a época é extremamente fértil em novas formas e usos do palco, configurando-se como um exemplo para o contemporâneo. Um dos problemas bastante discutidos no escopo dos formatos de audiovisual ao vivo é a dificuldade de criar arranjos multi-telas, muitas vezes em função do custo mais alto para montar estruturas que diferem dos padrões mais comuns de projeção. É um impedimento sério para as pesquisas com linguagens audiovisuais ao vivo, que tornam raras situações como a do Red Bull Live Images, em que o espaço multitelas dialogava com experiências pioneiras do cinema expandido, como Vórtex, ou projetos como a Orquestra Vermelha. Apesar de ser um aspecto secundário, o texto de Salter relata formas de fomento existentes na época, e as relações difíceis entre os artistas e os espaços em que atuavam. É um aspecto importante do tema, já que pesquisas deste tipo dependem de uma cultura de financiamento em que o sucesso e o alcance de público não são critérios para eleger o que é importante. Parece que a cultura contemporânea deixou de lado este tipo de investimento, mais interessado em gerar pesquisa que resultados (e atrelado a uma lógica de prestígio aos apoiadores, que não esperavam retornos mensuráveis mas sim construir uma reputação como fomentadores de experiências de vanguarda). Além de fornecer um panorama amplo das inovações em formatos de palco e sua importância para os rumos da performance contemporânea, o texto de Salter ajuda a relembrar um momento em que a sociedade parecia mais permeável ao experimentalismo sem resultados. Mesmo que fosse difícil e conflituosa, a busca dos artistas mencionados no texto de Salter era possível. Hoje em dia, o circuito de audiovisual experimental parece marcado por uma lógica de homogeneidade, em parte como resultado de uma cultura de palcos enxutos e riders econômicos. Rever um passado não tão distante e suas utopias de reconstrução do espaço cênico é um exercício importante para vislumbrar caminhos e reacender inquietações. Não faz tanto tempo assim que governos, empresas e organizações engajadas no apoio à cultura ainda acreditavam na possibilidade de estimular o experimentalismo por acreditar na importância de suas pesquisas, sem se preocupar com o tamanho dos circuitos que abrigavam este tipo de experimento, a quantidade de pessoas que eles atingiam ou as fatias do mercado de cultura que eles representavam.

 

 

A influência das artes na música pop

Sábado fui moderador da mesa “A influência das artes na música pop“, com Agnaldo Farias, Leo Felipe e José Aguilar. O debate aconteceu no contexto da exposição David Bowie, com 47 figurinos, trechos de filmes e shows ao vivo, videoclipes e fotografias. É um assunto infinito e cheio de possíveis recortes. A canção pop ocupou um lugar bastante grande no imaginário do século XXI, e isso significa que, entre artistas que cresceram ouvindo hits e músicos que produziram para galeria, há um escopo diversificado de conexões. Em Alta Fidelidade, Nick Hornby (o escritor que representa a essência do trânsito entre literatura e cultura pop) coloca na voz do personagem principal uma reflexão curiosa. Os pais que se preocupam com a quantidade de violência a que os filhos são expostos no cinema e na TV deveriam ficar atentos a uma influência cultural aparentemente menos problemática, a música pop: ele considera sua vida afetiva desastrosa um eco das melodias agradáveis que embalavam histórias de relacionamentos rompidos e amores estilhaçados, nas letras das canções ouvidas repetidamente durante toda a adolescência.

Músicas são marcantes na vida de todo mundo, para além do universo de personalidades obsessivas como os personagens de Hornby (que descreve com humor e sensibilidade o cotidiano de adultos perturbados por paixões desproporcionais por times de futebol fracassados, ou por cantores obscuros que encerram carreiras de forma misteriosa, depois de entrarem em banheiros de casas noturnas minúsculas posteriormente convertidas em mecas da estranha busca pelo contato com um ídolo pouco provável). O palco e a música são parte do imaginário das artes visuais desde o final do século XIX, como é possível perceber com a presença das dançarinas de can-can no imaginário impressionista.

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Ou a relação entre o boogie-woogie e a obra de Mondrian.

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O diálogo ganha densidade em experiências de visual music, em que a relação entre imagem e som é estrutural, e assume novas facetas durante o século. Basta pensar em experiências como Exploding Plastic Inevitable, ou na relação intensa entre o DIY punk e processos como a eletrônica de garagem (percursora dos formatos de circuit bending atualmente em destaque em festivais ao redor do mundo, e mesmo em exposições do grande circuito como a documenta de Kassel), a construção de dispositivos de exibição audiovisual que ampliam os formatos do chamado cinema de galeria ou o diálogo fértil entre o mundo do design, da moda e das artes exibido em fanzines e flyers. Há uma arqueologia bastante completa destas intersecções, na exposição DIY – Die Mitmatch Revolution.

A proximidade temática, ou a referência à presença de artistas visuais no circuito de música (e vice-versa) é um aspecto evidente do entendimento do trânsito entre pop e artes. Mas a questão vai muito além desta percepção inicial, sugerida nos discursos sobre o trânsito de artistas por gêneros e linguagens, ou do surgimento de formatos mistos, sob influência da experiência de Andy Warhol com o Velvet Underground ou das premissas do grupo Fluxus com formatos que cruzaram pop e experimental de forma intensa. Basta pensar em Laurie Anderson, no Beuys de Sonne statt Reagan, no diálogo recente entre Yoko Ono, Kim Gordon e Thurston Moore, em Yokokimthurston ou exemplos mais próximos como Ptyx, de José Wagner Garcia e Wilson Sukorski, e o Poemix (Cid Campos, Lenora de Barros, João Bandeira e Walter Silveira). No catálogo da exposição Rock-Paper-Scissors, uma das coletivas mais importantes sobre o universo que cruza as artes e a música pop, realizada na Kunthaus Graz, Diedrich Diedrischsen aponta relações muito mais estruturais entre a maneira de criar uma canção e procedimentos das artes visuais “pop music has its reference point in the studio recording. This is what is worked and polished, cut and assembled as is traditionally done with objects of the visual arts. It is a kind of sculptural work performed on the phonographic sound object (layering of audio tracks in space rather than sequential music-making in time). Techquines related to those of photo editing are also employed”. É neste universo de formas equivalentes de operar com a linguagem que a conversa entre pop e artes visuais pode ser pensada com uma consistência que vai além do meramente constatativo, da descrição do fluxo de músicos pelo circuito das artes visuais ou de artistas pelo universo pop. Há semelhanças de pensamento que vão além dos circuitos cruzado, que só surgem quando se começa a levar em conta como as linguagens operam neste universo de registros cruzados e procedimentos mais equivalentes do que se suspeita. Antes de passar a palavra para os participantes da mesa, que certamente vão aprofundar estes temas muito mais do que o permitido nesta fala de abertura, gostaria de deixar a platéia com um trecho do clipe de High Heels on the Moon, da artista japonesa Sputiniko, um exemplo recente dos caminhos férteis que tem sido apontados pelos cruzamentos estruturais entre formas de pensar música, arte e design.

 

O design como imaginação de mundos

O artista surrealista Philipe Ramette pode ser considerado um dos expoentes no desenvolvimento do que Antonhy Dunne chama de “heterotopian gadgets”, ou dispositivos heterotópicos. São “objetos conceituais que tornam inúteis nossas expectativas do que uma coisa deveria fazer”, conforme definição em Hertzian Tales. Entre os exemplos citados no livro estão Object to Make Yourself Be Struck by Lightining (Objeto para fazer você ser atingindo por um raio) e Object with Which to See the World in Detail (Objeto para ver o mundo em detalhe, imagem abaixo).MAGE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O design contemporâneo trabalha com aspectos emocionais suscitados pela cultura material, assim como vale-se de projetos conceituais que visam estimular a reflexão sobre aspectos da sociedade contemporânea. Nesta direção, vale conhecer trabalhos como Suicide Machine, de Jack Kevorkian, ou Confort Units, de Andrea Zittel.

 

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Jony Ive: funcionalismo ma non troppo

 

 

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A caneta TX2 tem uma bola em seu topo, que permite às pessoas brincarem com ela de maneira lúdica: é um exemplo da abordagem de Ive, que busca design funcionalistas com elementos que poderiam ser tidos como inúteis, num recorte clássico, mas demonstram um entendimento mais amplo dos desejos humanos e de como eles se relacionam com os itens que compõe sua cultura material.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em A linguagem das coisas, Deyan Sudjic aponta a semelhança evidente entre decisões de design da Braun e da Apple. Mas é impossível entender Jony Ive como um funcionalista típico. O designer criou assinatura da empresa, desde que mudou a forma como as pessoas se relacionam com computadores ao criar o iMac (um computador que pretendia ser avaliado da mesma forma que as pessoas fazem com eletrodomésticos, e não pelo padrão de desenho e recursos até então dominante no mercado de PCs).

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Entre fracassos, como Mac Cube, e sucessos, como o iPhone, Ive forjou uma caminho que concilia funcionalidade e toques inúteis que fazem as pessoas descobrir tudo o que elas queriam antes daquele produto existir. Neste artigo da Business Insider é possível conhecer um pouco mais de sua trajetória, descrita de forma detalhada no livro recém publicado Jony Ive – O gênio por trás dos grandes produtos da Apple.

 

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